Roxo
Fala pra caralho mas não usa uma lâmina retrátil
A Ubisoft, para quem não conhece, é a empresa que faz os jogos da série Assassin’s Creed. A Abstergo é a empresa fictícia do universo de Assassin’s Creed, controlada pelos templários, os grandes vilões do jogo. Os jogos da série Assassin’s Creed existem dentro do próprio universo do jogo, e são produzidos pela Abstergo. É um tipo de metacrítica parecida com os Simpsons criticando a FOX ou Monty Python falando da programação da BBC.
Em Assassin’s Creed IV: Black Flag, você encontra uma mensagem do CCO da Abstergo dizendo: “me deram a tarefa de publicar um jogo por ano”. O que não deixa dúvidas: A Ubisoft e a Abstergo são a mesma empresa.
Mas, então, por que a Abstergo faria jogos criticando ela mesma? A explicação é dada nos próprios jogos: as memórias que você acessa não são o produto final que a Abstergo vende. A Abstergo produz uma versão falsificada da história, evitando tomar partido. O jogo que nós jogamos é a versão não-editada das memórias que servem de base para para os produtos de entretenimento criados pela Abstergo. Uma versão sem filtros, ou seja, é a história real. Genial, não é?
Em vez de ser como os assassinos na vida real, você pode jogar o jogo e se sentir como se estivesse lutando por essa liberdade, enquanto continua preso. Genial, não é?
No jogo, a luta dos Assassinos contra sistemas de controle é transformada pela Abstergo em entretenimento lucrativo. No mundo real, a Ubisoft transforma a luta de personagens históricos reais em entretenimento lucrativo.
A Ubisoft não mostra a história real, ela também evita posições políticas explícitas, transformando revoluções, colonialismo, guerras religiosas e ditaduras em cenários para aventuras, sem defender explicitamente a luta política contra essas coisas no mundo real.
Após denúncias de assédio e problemas de gestão em 2020, ficou ainda mais evidente como a Abstergo é um “alter-ego” da Ubisoft. E isso acontece em muitas obras cujos autores fazem auto-referências depreciativas.
No seriado Sandman, no episódio especial do fim da primeira temporada, chamado “Calíope”, Neil Gaiman conta a história de um escritor que perdeu a inspiração e decide “comprar” uma mulher, Calíope, uma das musas da mitologia grega, capaz de conceder genialidade artística. O escritor a mantém presa em um quarto durante anos e a violenta sexualmente repetidamente para produzir grandes obras. Embora seja uma deusa, Calíope está submetida a uma antiga lei segundo a qual deve permanecer sob a custódia do mortal que legitimamente a possui. Numa das falas do personagem, ele está falando com um produtor interessado em fazer um seriado sobre sua obra, e o personagem diz: “ok, mas metade do elenco tem que ser de pessoas negras”. Ele está descrevendo o próprio seriado, deixando explícito que esse autor, que comete violência sexual para se inspirar, é o próprio Neil Gaiman.
Isso pode ter passado despercebido, mas veio à tona quando finalmente Neil Gaiman foi publicamente acusado de violência sexual por várias mulheres.
O capitalismo contemporâneo vende a crítica ao capitalismo. Boltanski e Chiapello chamam esse fenômeno de incorporação da “crítica artística”. A Ubisoft encaixa-se nessa lógica, assim como a Netflix e muitas outras empresas.
Em Assassin’s Creed, o jogador consome a fantasia de participar de uma organização revolucionária clandestina que luta contra um sistema de controle global. Essa experiência ocorre dentro de uma franquia altamente industrializada, baseada em propriedade intelectual, marketing mundial, colecionáveis, DLCs, passes de temporada e algoritmos de retenção de jogadores.
Dentro do universo de Assassin’s Creed, a Abstergo produz videogames inspirados nas memórias genéticas dos Assassinos para transformar uma história de resistência em entretenimento inofensivo. São os escritores da Ubisoft dizendo que eles tem consciência que é exatamente isso que eles estão fazendo. Eles trabalham para uma empresa que vende um jogo cuja história afirma que empresas transformam a resistência em produtos para neutralizá-la, e esse jogo não produz absolutamente nenhuma reação do público contra esse sistema. Pelo contrário, o que o público quer é mais um Assassin’s Creed. Que tal um sobre a Guerra do Vietnã? Há um mercado inesgotável de conflitos históricos que podem ser transformados em jogos da série.
Em Assassin’s Creed, o jogador participa ativamente da fantasia da revolução, mas essa participação ocorre em um circuito econômico que converte a própria sensação de contestação em valor de mercado. A experiência de “lutar contra o sistema” torna-se compatível com o funcionamento do sistema.
A Ubisoft não criou essa autocrítica deliberadamente, e provavelmente Neil Gaiman também não. Ela simplesmente acontece, por causa do quanto os autores querem explorar a “realidade”. A Dialética do Esclarecimento já falava sobre isso. A filosofia se tornou tão “esclarecida” do seu próprio papel na história que ela se voltou contra ela mesma.
O novo capitalismo produz sujeitos que torcem pela rebelião nos produtos de entretenimento que consomem, e na vida real apoiam o império, ou pelo menos não se rebelam contra ele. Isso não é um paradoxo, isso é um projeto político. O que há de realmente contraditório não é ser fã de Star Wars e ser de direita. É se fã de Star Wars e nunca ter atirado num Stormtrooper. Se você não faz nada parecido com aquilo na vida real, nada muda. Você deixa isso para um personagem fazer, e ele sacia sua vontade de ver o império se ferrar. Essa é a catarse. Com a sua vontade de ver “o circo pegar fogo” saciada, você volta para sua vida tranquila sem nunca atear fogo num prédio público. Sem nunca tacar uma pedra num policial. Sem nunca sequer mijar na porta de uma igreja. O que diferencia você, então, do nerd conservador de direita? Um discurso apenas. São ambos igualmente inofensivos. Para o sistema, são ambos a mesma coisa, estão ambos capturados.
A conclusão, por pior que seja, é que Star Wars, por exemplo, não é uma crítica ao fascismo. Star Wars é uma estratégia de marketing que te impede de lutar contra o fascismo na vida real. Por que você acorda e vai para o trabalho em vez de se juntar a um grupo revolucionário real? Por que o trabalho pode ser maçante, mas o novo Star Wars vai sair e você não pode perder! Afinal, É PRA ISSO que você paga suas contas. É pra isso que você trabalha para os fascistas, e não contra eles. Porque sem fascismo não há Star Wars, e você quer mais Star Wars. Se os EUA caírem, sobre o que vai ser o próximo Star Wars? Vai ser um filme em que os personagens passam duas horas na cantina bebendo leite de bantha, jogando sabacc e conversando sobre seus holodramas favoritos? Blarg. Que graça isso teria? Isso não seria Star Wars, seria Star Trek: pessoas vivendo numa sociedade suficientemente estável para que o maior problema da semana seja um dilema moral, uma descoberta científica ou uma negociação diplomática, em vez de mais uma guerra contra um Império.
Espero não estar ofendendo apenas os fãs de Star Wars com isso. É só um exemplo. Na verdade eu quero ofender todos os fãs de qualquer franquia milionária que apresente rebeldes como heróis. Na verdade, eu quero ofender qualquer pessoa que consome qualquer produto que fala sobre revolução e gera lucros milionários. Pode ser filme, música, jogo, livro, tanto faz. Na verdade, eu quero ofender todo mundo, a começar por mim mesmo, porque eu tenho toda essa “rage against the machine” dentro de mim, e tudo que eu esmago são teclas do meu teclado. Que vida é essa? ARGH.
Eu estou bem, desculpe, vou tomar meu remédio.


