Gratidão
Sobre o dia em que um roqueiro loiro místico pintou um quadro na minha mente
Kula Shaker é uma das bandas que eu descobri inteiramente por acaso. Comprei o CD pela capa e por gostar de algum clipe da banda na MTV, ouvi várias vezes, e nunca mais saiu da minha mente. Dei o CD de presente para um amigo da filosofia que eu acho que apreciaria a mistura de rock com “hare krishna” melhor do que eu.
Bem, este é o vídeo da música que meio veio à mente recentemente:
Estou pintando, pinto um quadro na sua mente
Se você está percorrendo estradas que levam ao suicídio, eu sei que você pode simpatizar
Se o seu amor é uma traição e a dor te cegou
Se a sua lua de mel no verão é um piquenique na chuva...Você será grato quando estiver morto
Sim, você será grato quando estiver mortoEstou sacudindo, sacudo a lança diante dos seus olhos
Bem, se você conhece a sua história, você lerá nas entrelinhas
Se está esperando por uma visão que ilumine a sua mente
Para deixar este mundo de miséria, deixar tudo para trás...Você será grato quando estiver morto
Sim, você será grato quando estiver morto
A música “Grateful When You’re Dead” foi lançada em 1996 no álbum chamado apenas de “K”. Um ano extremamente marcante para mim.
Crispian Mills é uma figura incomum no rock britânico dos anos 1990. Ele mergulhou em filosofia indiana, misticismo hindu e psicodelia dos anos 1960. O nome “Kula Shaker” foi inspirado em um príncipe indiano, e várias músicas da banda usam conceitos em sânscrito e referências ao hinduísmo, como por exemplo “Govinda” e “Tattva”.
A relação dele com a tradição védica e o movimento Hare Krishna é real. Mills estudou tradições ligadas ao vaishnavismo (a corrente hindu da qual o movimento Hare Krishna deriva) e a banda incorporou elementos dessa espiritualidade em suas músicas. O álbum K inclusive termina com uma gravação de A. C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada, fundador da International Society for Krishna Consciousness.
Kula Shaker fez parte da retomada do rock psicodélico dos anos 1990. Suas maiores influências são os Beatles, Pink Floyd e principalmente Grateful Dead. A faixa que complementa a música do vídeo acima, “Jerry Was There”, é uma referência explícita a Jerry Garcia, vocalista do Grateful Dead.
Mas, afinal, o que está escrito nas entrelinhas? Sobre o que é essa letra?
Você pode interpretar que, se este mundo é sofrimento, então morrer não é tão ruim assim. A morte é a dissolução da identidade individual, a morte do ego, que pode ser experimentada com o uso de psicodélicos, ou na meditação, ou até na música.
O hinduísmo tradicional vê a existência material como marcada por sofrimento, apego e ilusão (maya). A libertação espiritual (moksha) consiste em transcender esse ciclo. Morrer significa libertar-se da prisão do ego e dos apegos que causam sofrimento.
Mas há outra forma de entender essa letra: Se você considerar que ela tem uma pitada de sarcasmo britânico, pode estar dizendo: você está cansado de sofrer? Não se preocupe, a solução é simples: basta morrer. Nesse sentido, a questão não é que morrer não é tão ruim assim, mas justamente o contrário: é o sofrimento que não parece tão ruim assim, quando a única opção a ele é morrer.
Jerry Garcia teria dito que “ficar realmente chapado é esquecer de si mesmo. E esquecer de si mesmo é ver todo o resto. E ver todo o resto é tornar-se uma molécula consciente na evolução, uma ferramenta consciente do universo.”
A ideia é que o sofrimento humano está ligado à obsessão com o “eu” separado do resto. Quando você abandona essa separação, você entende tudo. Você se torna verdadeiramente consciente.
Garcia tratou a música como uma experiência de morte do ego, onde o indivíduo se torna a banda. A música acontece por meio da banda, não é produzida por indivíduos separados.
Os fãs descreviam os shows do Grateful Dead em termos quase religiosos, como se estivessem participando de uma experiência psicodélica coletiva. Mas Garcia nunca pretendeu se apresentar como mestre espiritual.
Kula Shaker diz que “Jerry estava lá. Você podia sentir sua presença por toda parte”. E sim, Karl Marx está na capa do álbum, mas apenas porque seu nome começa com K. Todos os rostos e objetos da capa parecem ter uma conexão profunda com a banda, mas são apenas pessoas e objetos cujo nome começa com a letra K. Se você prestar atenção, pode encontrar o rosto de Kal-El, por exemplo, o nome kriptoniano do Superman da DC.
É curioso que, logo antes de pedir que a gente leia nas entrelinhas, a letra fala sobre “sacudir uma lança” diante dos nossos olhos. O que isso significa? Bem, como alguém formado pela cultura cristã, a primeira coisa que veio na minha mente foi a lança de São Longuinho, que matou Jesus. Mas por que Mills se referiria a Jesus? Eu sei que o movimento Hare Krishna tem certo sincretismo com o cristianismo. Então poderia ele estar falando sobre como Jesus atingiu a iluminação ao morrer? É uma interpretação comum de alguns Hare Krishna de países com forte influência cristã.
Mas a lança também aparece em diversas tradições indo-europeias como símbolo da verdade que atravessa a ilusão. Ele poderia estar dizendo “eu mostro a verdade a você” ou “eu estou tentando te acordar”, o que combina perfeitamente com a ideia da letra.
Essas duas interpretações, porém, são resultado de pensar demais. O que provavelmente motivou a frase foi algo muito menos significativo. É um simples jogo de palavras com o nome de William Shakespeare. Eu sacudo a lança, “shake the spear”, Shakespeare. Por que? Não há nenhum sentido profundo, é só mais um entre os vários jogos de palavra contidos nesse álbum, e na própria imagem do álbum, para esconder que não há absolutamente nada profundo nele.
Então, essa é minha tese sobre o que está escrito nas entrelinhas dessa letra: nada. O próprio Mills disse que o refrão era apenas uma brincadeira com o nome da banda Grateful Dead. Se você está procurando por uma visão para iluminar sua mente, o disco do Kula Shaker não é o lugar onde você vai encontrar isso. Mills provavelmente não entendeu nada sobre iluminação, nem tão pouco Jerry Garcia, e muito menos eu.
A verdade é que, com o passar do tempo, meu interesse por “iluminação” só foi diminuindo. Hoje em dia, eu responderia “Grateful When You’re Dead” com “Real Solution #9” do White Zombie: Eu já estou morto.
Se existe alguma coisa que me mantém “vivo” é o fato de que eu já estou morto. Se eu não estivesse morto, eu estaria sofrendo muito. Mas como já estou morto, estou grato. Não tenho do que reclamar. A minha não-vida está ótima como está.
Então, gratidão, Kula Shaker, por pintar esse belo quadro psicodélico na minha mente. Eu estou vendendo ele por 10 reais, pois não tenho parede para pendurá-lo. Mas se alguém gostou, pode ficar. Faça bom proveito.


